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Saiba quem foi Luiz Gonzaga e a relevância cultural do compositor para além das lives juninas [ANÁLISE]

O Rei do Baião canta "crônicas da vida sertaneja, o que não estava presente no Sudeste", explica percussionista Giba Alves

Seham Furlan Publicado em 29/06/2020, às 20h14

Luiz Gonzaga
Luiz Gonzaga - Domínio público / Acervo Arquivo Nacional

Durante o mês de junho, as festividades -- e lives -- trazem o forró como parte e protagonista do reportório de artistas dos mais diversos gêneros, desde Michel Teló até Alceu Valença. Entretanto, nem sempre há espaço para refletir sobre o que o forró pauta musical e socialmente, para além do evento e mais, quem foi Luiz Gonzaga, compositor que mudou o discurso musical brasileiro.

Gonzaga nasceu próximo ao município de Exu, interior de Pernambuco, em 1912 e morreu em 1989, quando o Brasil passava pelos momentos finais da transição democrática, após a ditadura civil-militar. Gonzaga deslocou-se enquanto compositor, instrumentista e cantor nordestino, abordando a realidade regional por meio de discursos sonoros que atravessam gerações.

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Para compreender melhor o que a narrativa deste compositor tem a dizer sobre nosso tempo, conversamos com o percussionista e comunicador Gilberto Alves, o Giba, do Barbatuques, grupo que propõe aprendizagens musicais a partir da percussão corporal, trabalhando a escuta e também valores como a coletividade no fazer artístico.

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Retrato social da vida sertaneja

Durante a primeira metade do século XX, a arte brasileira abarcou, especialmente na literatura modernista, assim como na música, discursos de denúncia social da situação econômica e do desamparo dos nordestinos. As vulnerabilidades, protestos, travessias e esperanças das pessoas daquela região pautaram as composições do Velho Lua, assim como as festividades, gestualidades e costumes regionais.

"As primeiras vezes que ele [Luiz Gonzaga] rodou pelo Brasil foram com o exército. Depois de um amor complicado na época, ele se alistou", contou Giba, "Quando ele chegou no Rio, apresentava-se igual aos outros músicos da época: terno e gravata. Um pouco depois, ele começa a colocar estas vestimentas de vaqueiro, trazer a identificação do povo do Nordeste, não só do povo, mas da vida, porque as coisas que ele fala são crônicas da vida sertaneja, o que não estava presente no Sudeste". São exemplos os discos São João Na Roça (1958) A Triste Partida (1964). A música que dá nome ao álbum de 1964 fala sobre as desventuras da seca: a brevidade de setembro, a felicidade que passa rápido com o Natal e a travessia do verão quente de janeiro e fevereiro, até a esperança nas chuvas de março, mês de São José.

O percussionista explicou que Gonzaga fez uma revolução também sociológica, porque o compositor colocou o Nordeste em outro lugar, o que também abriu espaço para o orgulho e identificação de uma parte da sociedade à margem da representatividade cultural Rio-São Paulo. 

 

Corpo, forró e coletividade

Nem sempre a música é transmitida e aprendida a partir de partituras. Na verdade, a inteligência corporal e a transmissão de conhecimento corpo a corpo é muito importante para algumas culturas e linguagens artísticas. "Muitas destas tradições eram passadas por uma cultura verbal. Existem muitos músicos de forró que são autodidatas", disse Giba, "Isto é muito africano, um termo que o Emicida usa. Coisas que passam de geração para geração por via oral. Pela cultura do fazer". Em muitos casos, "O fazer musical é uma consequência do que uma pessoa viveu na infância, do que ele tinha e quanto ele tinha que andar para pegar água. Além disso, as famílias tinham instrumentos em casa. Até hoje, acontece bastante", completou.

O forró é um gênero musical companheiro da dança: "O passo da dança é obrigatoriamente no ritmo. O que você faz com os pés dançando forró é muito próximo ao que o músico da zabumba está tocando", explicou o integrante do Barbatuques. O grupo, inclusive, busca também a inteligência corporal enquanto ferramenta, cultivando a "generosidade de escutar o outro".

As nuances entre forró, baião e xote, por exemplo, também alcançam, em primeira instância, o corpo: "Forró e baião são coisas ritmicamente bem parecidas, com velocidades médias e rápidas. O xote, traçando um paralelo com jazz, é um pouco a balada do forró. São andamentos mais lentos, a dança é mais cadenciada", explicou Giba, "O que difere um pouco é o andamento, logo, as melodias também. Há autores que dizem que a diferença entre forró e baião se dá na dança. O xote tem melodias mais espaçadas".

 

Festividades populares e sociabilidades

Junho e julho são meses nos quais as festividades nordestinas, repleta de bandeirinhas coloridas, camisa xadrez e culinárias ditas 'típicas' ocupam as mídias. Também é um momento de reprodução de caricaturas e esteriótipos, o que acaba afastando a compressão mais densa de outras realidades. "Por que as pessoas estão comendo milho, ouvindo forró e tomando quentão? Porque remete a um modo de vida de um determinado brasileiro que não é o que está na festa", refletiu o percussionista, "É totalmente diferente de ir em uma festa de uma comunidade nordestina e ir a um clube de elite paulistana. Mas, talvez a partir de uma festa assim, a pessoa, começando a ouvir uma dupla sertaneja pop, possa se interessar a ponto de chegar no Luiz Gonzaga".

A obra do Rei do Baião trata de êxodo rural, desigualdades e do cotidiano nordestino. A época junina remete também às relações sociais cultivadas durante as festas populares, que passaram a ocupar mais espaço no imaginário social com a amplificação das composições do sanfoneiro e que carregam, portanto, as narrativas de outros contextos sociais -- que precisam ser lembrados.

"É importante preservar valores, costumes e dar abertura para outro modo de vida. A essência destas festas é muito democrática. Não necessariamente a releitura delas seja. Muitas ocorrem em clubes que só sócios entram", analisou Giba, "Se você se interessar pela página 2, você já vai parar em muita gente interessante, outras manifestações populares, outras culinárias e outras possibilidades de viver".

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