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Saiba a importância da guarânia, gênero musical paraguaio ressignificado nas vozes de artistas brasileiros, de Cascatinha & Inhana a Gal Costa [ANÁLISE]

Evandro Higa, professor da UFMS e musicólogo, conta sobre gênero que conecta o Brasil, Argentina e Paraguai

Seham Furlan Publicado em 20/07/2020, às 20h34

Cascatinha & Inhana na TV Cultura (esquerda) e Gal Costa, em 1971 (direita)
Cascatinha & Inhana na TV Cultura (esquerda) e Gal Costa, em 1971 (direita) - Reprodução/ YouTube (esquerda) e Domínio público / Acervo Arquivo Nacional (direita)

Nem só de bossa nova vive a música popular brasileira (MPB). É fato que Johhny Alf -- raramente mencionado --, Tom Jobim, João Gilberto, dentre outros compositores, transformaram o que chamamos de MPB.

Luiz Gonzaga, acompanhado da sanfona, zabumba e do triângulo, foi outro compositor, cantor e instrumentista formador da MPB e fez do forró, baião e xote ritmos significativos para expressar as crônicas da vida no sertão.

Ao olharmos com atenção para um "Brasil profundo", como propõe Evandro Higa, pianista, musicólogo e autor de "'Para Fazer Chorar as Pedras': guarânias e rasqueados em um Brasil fronteiriço", perceberemos que as músicas latino-americanas foram importantes para a representação e resistência político-cultural de um povo em um contexto.

A guarânia apareceu primeiro no Paraguai e foi ressignificada em território brasileiro para o que chamamos de rasqueado e no nordeste argentino, onde recebeu o nome de chamamé. O gênero transformou as vivências fronteiriças entre Mato Grosso do Sul e Paraguai em som.

No Brasil, a guarânia recebeu atenção especial de músicos caipiras sertanejos de São Paulo, entre eles Mario Zan e Nhô Pai, como explica Evandro, também professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS): "Estes músicos encantaram-se com a guarânia paraguaia. Nhô Pai serviu o exército em Ponta Porã e, ao voltar para Paraguaçu Paulista, começou a compor  o que é chamado de rasqueado".

De acordo com o professor, "A região da fronteira suscitava curiosidade e era um lugar de difícil acesso. Chegar e se embrenhar nas fronteiras do Paraguai era visto como uma grande aventura", explica, "Isto acabou sendo identificado como parte do contexto da música rural brasileira, já que estes músicos eram do segmento da música caipira sertaneja".

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Guarânia no Paraguai e Brasil

Para início de conversa, é preciso compreender, como atenta o musicólogo, que os gêneros musicais são "Invenções que acontecem dentro de uma historicidade, um processo social de construção destes gêneros".

Costuma-se atribuir a "invenção" da guarânia a um compositor paraguaio chamado José Asunción Flores, mas não é tão simples assim. "As primeiras composições que receberam o rótulo de guarânia são de autoria dele", conta Evandro, "Isto fez parte de um processo histórico que o Paraguai vivia na década de 20 e 30, de construção de um sentido nacionalista. A guarânia caiu como uma luva".

Flores é autor da composição "Índia" (1926-1929), que atravessou as fronteiras do Paraguai e ganhou interpretações brasileiras dentro e fora do segmento sertanejo.

O musicólogo conta que, quando a música surgiu, ainda não era uma guarânia, uma vez que não havia este conceito: "Isto vai ser construído na década de 30. Elas foram gravadas, à época, na União Soviética, o que acabou linkando a guarânia à resistência política no Paraguaia".

Flores acabou tendo de se exilar durante grande parte da vida na Argentina, o que também traz para a guarânia e para a "Índia" um caráter de resistência cultural e política: "É uma afirmação de pertencimento a uma pátria mãe indígena. No Paraguai, é a nação paraguaia".

No Brasil, a mesma composição revestiu-se de um caráter romântico, com outra letra "Índia seus cabelos nos ombros caídos", que lembra a personagem e romance de José de Alencar, Iracema (1865).

É preciso destacar que a construção cultural da indígena romantizada é, atualmente, criticada pelos movimentos indígenas e pesquisadores, especialmente mulheres indígenas, já que tal idealização apaga conflitos que dizimaram diversos povos.

A construção da mulher indígena pelo olhar de outro, que não a própria mulher indígena, tende a fazer uso de esteriótipos, retratando a mulher enquanto pura, meiga e comparada à natureza. Tal retrato deixa de fazer sentido atualmente. À época da composição, tais discussões não tinham tanto espaço quanto hoje, mas tal reflexão sobre a letra de "Índia", de José Fortuna, não deve ser deixada de lado.

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A interpretação da guarânia por Cascatinha & Inhana

No Brasil, a dupla Cascatinha & Inhana surge na década de 40 cantando de tudo. Em 1952, quando já era uma dupla caipira relativamente conhecida, gravam "Índia" e "Meu Primeiro Amor". "Com este disco, a dupla se projeta nacionalmente", explica Evandro, "Ela [a dupla] acabou difundindo estas duas guarânias e tornou-se intérprete simbólicos deste repertórios".

Na época, a crítica não deu a devida relevância à gravação: "Estávamos vivendo o momento de construção de uma brasilidade na esteira da Segunda Guerra Mundial. Lia-se como uma 'invasão estrangeira', mas os paraguaios estavam integrados à população fronteiriça", conta o professor. 

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Construção de identidades, música e rádio

 O rádio foi fundamental na história brasileira em diversos âmbitos. Era o meio mais poderoso até o surgimento da televisão na década de 50. "Tínhamos a Rádio Nacional no Rio, a mais poderosa do Brasil, ouvida nos EUA, na Europa", explica o musicólogo, "Na cidade de São Paulo, surgiu outra Rádio também muito poderosa, mas sem o mesmo alcance: a Rádio Record".

A época foi de polarização. A Rádio Nacional dava visibilidade ao samba carioca como a principal expressão musical brasileira, e Rádio Record construía o paradigma da música caipira sertaneja como manifestação da identidade rural brasileira. 

"As identidades nacionais são construídas a partir de ações do Estado, a partir de programas culturais", relata Evandro, "Na década de 40, o governo Getúlio Vargas estava muito interessado em vender uma imagem de um Brasil musical a partir do samba carioca aos Estados Unidos e ao mundo dentro do contexto da Segunda Guerra Mundial".

Evidentemente, o samba é extremamente importante, mas não era somente isto: "Tínhamos outros Brasis musicais que aconteciam e que ficavam no subterrâneo. Estes Brasis outros eram mantidos vivos por populações que não sabemos ao certo quais eram. No caso da guarânia, tem muito a ver com a invisibilidade destes paraguaios e seus descendentes no Brasil", explica o professor.

"As identidades são constantemente construídas, reconstruídas, e as pessoas não são atravessadas por uma única identidade, mas por múltiplas identidades e que são flutuantes. São construídas a partir do reflexo e espelho do outro: aquilo que eu reconheço no outro e que não sou, possivelmente, irá me dizer o que eu sou", analisa Evandro

 Ainda no século XXI, os paraguaios são vistos de forma depreciativa no Brasil: "Depois da Guerra do Paraguai, os paraguaios viraram piada. Tudo que é falsificado, remetemos ao Paraguai. Esta condição subalterna acabou ocasionando a invisibilidade destas pessoas. Isto é uma página a ser explorada pelos estudiosos".

 

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Um vínculo cultural entre Brasil, Paraguai e Argentina

"O Brasil do litoral sempre esteve voltado para a Europa e Estados Unidos e de costas para a América Latina", expõe Evandro. 

Durante o período da ditadura civil-militar no Brasil, outros países da América Latina também passavam por repressões, como na Argentina e no Chile: "Os músicos que se contrapunham a estas ditaduras de direita fizeram uma espécie de rede de comunicação", explica o musicólogo. 

 

"Com certeza, a Gal, quando gravou suas versões de "Índia" estava imbuída disto. A música de Geraldo Vandré, 'Para Não Dizer que Não Falei das Flores', também é uma guarânia. As pessoas até se perguntam o porquê de Vandré ter composto uma guarânia para um festival de música", diz Evandro, "Provavelmente, é devido ao fato de ele ter consciência de que a guarânia tinha um papel de resistência política cultural no Paraguai".

Outros músicos, como Taiguara, regravaram versões de "Índia" e outros muitos se inspiraram em ritmos latino-americanos neste período enquanto forma de resistência. Alguns deles são Chico Buarque, Maria Bethânia e Milton Nascimento, junto ao Clube da Esquina.

O professor conta que há uma rede musical que conecta o nordeste da Argentina, o Paraguai e o Brasil, no caso específico, o Mato Grosso do Sul, dentro do que os músicos, artistas e poetam chamam de 'alma guarani', uma ancestralidade da cultura dos indígenas guarani que habitaram toda esta vasta região antes da chegada dos colonizadores portugueses e espanhóis.

"O próprio nome "guarânia" vem de uma poema que reverenciava a etnia do povo indígena guarani", lembra o Evandro, "Há uma questão ancestral muito poética que envolve o que chamamos de guarânia e que nos conecta, Brasil, Argentina e Paraguai, um Brasil profundo".

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