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Machismo no sertanejo: letras reforçam a violência, ideologias de inferioridade e posse com mulheres

Algumas letras sertanejas, naturalizam os aspectos machistas da sociedade

Isabelle Colina Publicado em 21/06/2020, às 14h00

Henrique, dupla de Juliano, Marília Mendonça e Gusttavo Lima
Henrique, dupla de Juliano, Marília Mendonça e Gusttavo Lima - Foto: Reprodução/Facebook

A música sertaneja é uma das principais representações artísticas brasileiras. Ela figura boa parte das canções que estão em primeiro lugares nas paradas musicais e os shows movem uma parcela significativa na economia. 

As músicas são conhecidas por retratar o cotidiano da sociedade, assim, ela retrata o avanço e desconstrução de paradigmas conhecidos. Em mais de um século de existência, o número de mulheres que alcançaram o sucesso representa uma parcela muito pequena em comparação ao de artistas homens. 

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Em uma pesquisa recente feita por pesquisadoras da Universidade de Brasília e veiculada pelo portal Metrópoles, mostra que mesmo com o surgimento de grandes artistas femininas, as letras sertanejas ainda mostram ideais desiguais de relacionamentos amorosos, além de naturalizar aspectos machistas da sociedade. 

Uma das canções mais executadas nas plataformas de streaming em 2018 e 2019 foi “Propaganda”, de Jorge & Mateus. A dupla conta a história de um homem que vê a mulher como um objeto de posse e por medo de outras pessoas se interessem  por ela, ela a desqualifica. 

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Já a faixa “Ciumento Eu” de Henrique & Diego com participação de Mathues & Kauan é uma das faixas que pode causar crises de pânico a qualquer pessoa que escute com mais cautela. Além de mandar a mulher “falar baixinho”, o homem mostra-se extremamente ciumento, tendo atos de perseguição e intolerância à individualidade.

"Ciúme não/ Excesso de cuidado/ Repara não, se eu não sair do seu lado/ Tem uma câmera no canto do seu quarto/ Um gravador de som dentro do carro/ E não me leve a mal, se eu destravar seu celular com sua digital/ Eu não sei dividir o doce/ Ninguém entende o meu descontrole/ Eu sou assim não é de hoje/ É tudo por amor", diz a letra. 

Ao final da apresentação, os artistas ainda exclamam: "Que música boa". Não. A letra retrata um relacionamento abusivo. 

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Muitas letras sertanejas narram o término de relacionamentos. É comum, histórias de sofrer nos bares da vida, recaídas e sofrimentos de "dor de chifre". O problema é quando um dos lados não aceita o término e insistem mesmo após ouvir um "não". Henrique & Juliano com "Vidinha de Balada" e Marcos & Belutti com "Então Foge" são bons exemplos de tal relação. 

Luan Santana, artista conhecido por pregar o romantismo nas letras, também já lançou composições com trechos machistas. Em "Motel Paraíso", canção que integra o último projeto do cantor, o álbum Viva, narra a história de um homem que descobriu uma traição e invés de acabar o relacionamento e seguir com a vida, ateou fogo ao estabelecimento que a mulher se encontrou com outro homem. 

Já em "Check-in", Luan faz referência à história bíblica que Deus teria feito Eva, a primeira mulher, da costela de Adão, o primeiro homem. Para elogiar a amada, o cantor diz: "Quando foi fazer você fez do filé mignon". Comparar a mulher com um pedaço de carne não é um elogio que deve ser feito. 

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Encontramos também em letras sertanejas, retratos de violência psicológica. Em "A Mala É Falsa" de Felipe Araújo com participação de Henrique & Juliano, o homem faz chantagem emocional para conseguir uma relação sexual mesmo sem vontade. Ou a mulher faz sexo, ou o homem irá embora. 

Segundo a pesquisadora Mariah Gama, a sutiliza das letras é capaz de construir relações de poder e hierarquizadas. 

"É comum que esses apontamentos sobre as sutilezas do machismo e da misoginia na cultura popular, nas piadas, nas músicas ou nos filmes, sejam interpretados como ‘mimimi’, desqualificados e ignorados", diz. "Pois têm a capacidade de serem naturalizadas e cristalizadas no imaginário coletivo, produzindo e reproduzindo subjetividades, modos de ser, de agir, de se relacionar e de amar"

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Por exemplo, no hit "Homem de Família", de Gusttavo Lima, é apresentado um ideal de mulher capaz de transformar até o mais cachaceiro e pegador em um homem responsável. 

Mesmo com um aumento significativo de mulheres no sertanejo, ainda é possível encontrar resquícios de machismo em letras cantadas por elas. Em "Infiel" e "Amante Não Tem Lar", Marília Mendonça reforça a rivalidade feminina e a ideia a disputa entre "a oficial" e "amante". 

Em "De Quem é a Culpa", a Rainha da Sofrência conta a história de um relacionamento desgatado em que a mulher aceita "olhares e alguns abraços" para ter o homem por perto e se culpa por ter se apaixonado. Já em "Perto de Você", cantora narra um casal em que a mulher vive um relacionamento abusivo, preferindo "aguentar os gritos" e ser submissa fazendo os desejos do que se afastar. 

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O sertanejo e o machismo sempre esteve atrelado. A canção "Cabocla Tereza", lançada pela primeira vez em 1936 e regravada por diversos artistas como Tonico & Tinoco e Chitãozinho & Xororó relata o assassinato da mulher após ela ter decidido acabar o relacionamento.  

"Ouvi um gemido perfeito/ Uma voz cheia de dor: 'Vancê, Tereza, descansa'/ Jurei de fazer a vingança/ Pra morte do meu amor"

Em 2019, o Brasil teve 3.739 homicídios dolosos de mulheres, sendo 1.314 foram feminicídios. Em março desde ano, havia mais de 1 milhão de processos relacionados à lei Maria da Penha. Narrativas que apoiam de forma sutil a agressão contra mulher devem ser banidos da sociedade.

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Outro ponto importante ressaltar que a música sertaneja nunca representa o relacionamento homoafetivo. Há registros da existência do ritmo há mais de um século, contudo, somente em 2019 houve um artista assumidamente gay cantando para a comunidade LGBT. Em conversa com a Rolling Stone Country, Gabeu contou um pouco sobre o machismo no sertanejo. 

"O estilo de vida sertanejo preza por aquilo que é tradicional, mesmo que inconscientemente e que a sonoridade seja mais moderna. As coisas ainda são muito heteronormativas. Queria que estivesse ao nosso alcance, mas levará um tempo. Espero que outras pessoas busquem mudar isto, que outros meninos gays surjam, que surja o sapanejo, o travanejo, todos os "nejos" possíveis. Não vemos muitos cantores negros dentro do sertanejo, é tudo muito hétero, masculino e branco. Muitas pessoas não se identificam por estes motivos". 

Há um longo caminho para a desconstrução de narrativas machistas no sertanejo. O aumento do número de artistas deve ajudar no processo e é papel do público não aceitar mais narrativas como estas. Contudo,  ainda há a naturalização de aspectos machistas da sociedade. Esperamos o dia em que a mulher não seja mais vista como submissa e posse de homens. 

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