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Voz do queernejo, Gabeu representa a comunidade LGBT no gênero ainda pouco diverso: 'É tudo muito hétero, masculino e branco'

No Dia Internacional da Luta Contra LGBTfobia, Gabeu fala sobre o que pode ser comemorado e o que tem pressa para transformar no sertanejo

Seham Furlan Publicado em 17/05/2020, às 08h00

Gabeu, cantor e compositor
Gabeu, cantor e compositor - Reprodução/ Instagram

Gabeu não sofria de amor acompanhado por uma viola. Antes de redescobrir-se como caubói, almejava o caminho do pop.

Guiado pela diva Lady Gaga e inventando hits a partir de demos no YouTube, Gabeu performava para si próprio, apagava as luzes do quarto e soltava o verbo em inglês. Hoje, ele segue um caminho que, por muito tempo, renegou.

O motivo: falta de representatividade na área. Neste domingo, 17, dia Internacional Contra a LGBTfobia, Gabeu conta sobre o que é possível comemorar na data, e o que tem pressa para transformar.

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Filho do cantor Solimões, conhecido músico sertanejo brasileiro, Gabeu passou a valorizar as letras e sonoridades da antiga moda de viola com o pai. Quando descobriu referências musicais em português, percebeu que poderia fazer o mesmo. Entretanto, os temas seriam outros no pocnejo.

"Amor Rural", como explica o estudante de produção musical, narra "o amor proibido entre dois rapazes da roça" que decidem assumir o relacionamento, tema que, definitivamente, não é clichê no gênero das modas de viola.

Gabeu sonha com o dia no qual militar não será mais preciso, quando poderá cantar, simplesmente, sobre sofrência ocupando um espaço dentro da música. Até lá, ele continua se posicionando contra as opressões sexuais para que LGBTs possam ocupar quaisquer gêneros, desde o rap ao sertanejo.

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Em entrevista à Rolling Stone Country BrasilGabeu contou um pouco sobre como tem lidado com a quarentena, sobre novos projetos e fez uma leitura da diversidade no gênero sertanejo.

 
 
 
 
 
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RS Country: O que tem feito para manter a sanidade durante a quarentena? 

Gabeu: Na verdade, não estou mantendo a sanidade. Está difícil ficar dentro de casa. Estou usando este tempo para tentar compor, criar algo. Minhas aulas de música estão continuando à distância. Queria fazer coisas mais experimentais, com música eletrônica. Às vezes sai algo interessante, às vezes fico um pouco frustrado. Tento não me pressionar. Estou produzindo um álbum, mas não penso que será divulgado durante a quarentena.

RS Country: O que pode ser comemorado neste dia 17, tanto no Brasil, quanto no âmbito da música sertaneja em relação à representatividade LGBT? 

Gabeu: Em um cenário musical mais abrangente, tivemos um avanço grande em representatividade. Estamos vendo mais pessoas como nós ocupando espaços dentro da música e isso é importante. Quando eu era criança, não tive um ídolo que fosse um homem gay no qual pudesse me espelhar. Para muitas pessoas, enquanto LGBT, a gente só pode ocupar a música pop. Quando tentamos ocupar esses lugares, falamos por diversas pessoas. Nossas representações são sempre caricatas, estamos sempre no lugar de deboche, nunca é algo sério. Temos muito o que caminhar, não estamos no ideal ainda. No sertanejo, somos eu e outras poucas pessoas que não tem o reconhecimento que merecem.

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RS Country: Você se posiciona bastante nas redes sociais em relação à política, como você vê a postura de outros cantores no sertanejo?

Gabeu: Na maioria das vezes, a falta de posicionamento não é por ignorância. É uma escolha política de não se posicionar. Grande parte do mainstream sertanejo está atrelado, por exemplo, ao agronegócio, algo complicado em nosso país e que movimenta muito dinheiro. Isto faz com que decidam não se posicionar e serem a favor de coisas que eu, por exemplo, não sou, como o governo atual. 

RS Country: Você recebe comentários e mensagens homofóbicas? Como combate o preconceito?

Gabeu: Recebo mais este tipo de mensagem, quando lanço alguma coisa. No início, comentários negativos me abalavam muito na internet, seja de cunho homofóbico, ou algo relacionado à técnica musical. Depois de um ano após minha primeira música, estou abstraindo. Como artista, não posso me preocupar tanto com comentários negativos na internet. Só bagunça ainda mais nossa cabeça.

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RS Country: O que você tem achado das lives sertanejas? Pensa em fazer uma?

Gabeu: Acho incrível, não imaginava que fôssemos parar os shows presenciais e passar a fazer online. As iniciativas solidárias são atitudes nobres. Nesta quarentena, estamos pirando. Estas coisas servem para lembrarmos que nem tudo está perdido. Perder o contato com o público faz muita falta. Achei muito boa a live da Marília Mendonça, a live do meu pai também, a da Lady Gaga. Participei de algumas lives, mas foi algo breve. Penso em fazer uma live no YouTube com minhas músicas e modas antigas, que gosto muito.

RS Country: Você pensa que o sertanejo pode vir a ser mais diverso em breve ou ainda vai demorar?

Gabeu: O estilo de vida sertanejo preza por aquilo que é tradicional, mesmo que inconscientemente e que a sonoridade seja mais moderna. As coisas ainda são muito heteronormativas. Queria que estivesse ao nosso alcance, mas levará um tempo. Espero que outras pessoas busquem mudar isto, que outros meninos gays surjam, que surja o sapanejo, o travanejo, todos os "nejos" possíveis. Não vemos muitos cantores negros dentro do sertanejo, é tudo muito hétero, masculino e branco. Muitas pessoas não se identificam por estes motivos.

RS Country: Solimões percebe a importância da militância nas composições feitas por você?

Gabeu: Dentre todos os pais de LGBTs que conheço, o meu pai é um exemplo, um dos melhores, não somente por ser meu pai, mas pela forma como ele lida com isto. Há coisas que ele ainda não consegue entender, por exemplo, o peso de uma representatividade e a importância de se falar sobre certos assuntos. Tento sempre alertá-lo sobre isto. Há um conflito geracional, mesmo filhos LGBTs com pais que aceitam e os entendem bem. É muito difícil ter uma relação entre um pai e filho LGBT que é 100% compreensível. Quando ele começou a cantar, ele não via o que vemos hoje. Ele sabe o que é representatividade, porque isto chegou nele por mim. Ele não precisou abordar estas questões nas músicas.

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RS Country: Quais cantores LGBT você tem escutado para recomendar? 

Gabeu: Muitos! Sou apaixonado pela Glória Groove, estou sempre escutando tudo o que ela lança. O Jaloo me inspira muito, ele é genial: canta, escreve, produz, além de ser uma pessoa incrível. Romero Ferro é um amigo de pernambuco. Gosto da Aíla, uma cantora lésbica do Pará, que mistura música regional com pop e eletrônico. Há uma galera no cenário queernejo, a Alice Marconi, que estreiou o travanejo, a Reddy Allor e a Gali Galó também. Há uma cantora de São Luís, Enme, que resgata as raízes africanas. Gosto sempre de falar de artistas que fazem coisas diferenças de mim. 

RS Country: O sertanejo pode ser mais diverso ao aproximar outros gêneros musicais?

Gabeu: Sim! Acho que a fusão de estilos musicais é algo que amo. Gosto de ouvir um funk que tem influência de músicas africanas, como é o caso de  Enme. Há muitas fórmulas prontas no sertanejo, explorar outros ritmos seria enriquecedor, usar outros instrumentos. O sertanejo raiz tinha isto, de falar sobre temas diversos. Meu álbum, inclusive, é ao redor disto. Cada faixa é sertaneja, mas tem uma particularidade, como country, sertanejo que puxa ritmos do norte, algo mais anos 90, algo das serenatas mexicanas. Misturas ousadas.

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RS Country: Você sente que tem uma responsabilidade enquanto cantor LGBT em um gênero onde o discurso machista, homofóbico predomina?

Gabeu: Totalmente. Quando lancei minha primeira música, recebi muitas mensagens de pessoas agradecendo, falando da importância da representatividade. Pessoas que passaram a vida ouvindo sertanejo e só agora se sentiram representadas. Fico lisonjeado.

 
 
 
 
 
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