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"Ouvi que sertanejo não é para gay", diz Gabeu, primeiro cantor de pocnejo

O artista é filho de Solimões e comentou sobre a relação com pai em entrevista exclusiva

Isabelle Colina Publicado em 22/11/2019, às 14h16

Gabeu é o primeiro cantor de pocnejo
Gabeu é o primeiro cantor de pocnejo - Foto: Reprodução/Instagram @gabeu

Por muitos anos, o cenário musical do sertanejo foi marcado pelo tradicionalismo, em que homens cantavam sobre a vida no interior, amores e, com o passar dos anos, sobre as baladas. Recentemente, as mulheres revolucionaram com a força do feminejo. Ainda que tenha esta representatividade, as canções falam da história de um casal heterossexual e nada para o público LGBT.

Gabriel Felizardo, ou simplesmente Gabeu, veio para mudar isso. Ele é o primeiro cantor assumidamente gay do cenário sertanejo e criou o movimento "Pocnejo" ("Poc" é uma gíria comum na comunidade LGBT que denomina homens gays afeminados). "Ouvi muito que sertanejo não é para gay, mas pensei por que não?", disse o cantor em entrevista exclusiva à Rolling Stone Country Brasil. "Ainda existem narrativas machistas, homofóbicas e algumas racistas no sertanejo", disse Gabeu.

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Muito além de apenas entreter, Gabeu quer fazer com que as pessoas escutem as músicas e reflitam. A nova faixa de trabalho, lançada nesta sexta,22, "Sugar Daddy",  mostra-se contra o relacionamento entre duas pessoas de idades distintas, em que uma das partes é sustentada por dinheiro, presentes ou outros benefícios em troca da relação amorosa. "Tende a se tornar uma relação abusiva, nada saudável", opinou o cantor. 

Pai famoso

Gabeu é filho do consagrado cantor Solimões, dupla de Rionegro. Por causa disso, desde a infância, Gabeu sempre foi influenciado por Milionário & José Rico, Tonico & Tinoco e Tião Carreiro

Gabeu com o pai, o cantor sertanejo Solimões - Foto: Reprodução/ Instagram 

 

"Amor Rural", primeira canção do cantor, foi um sucesso na comunidade LGBT. Atualmente, com quase um milhão de visualizações, ela teve uma grande repercussão graças a associação com o fato do cantor Solimões ter um filho gay. "Teve muitos comentários negativos na internet, mas o importante é focar no positivo."

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O cantor comentou ainda sobre a influência do pai na carreira, novos projetos e polêmicas envolvendo a comunidade LGBT.

Leia a entrevista

O que é o Pocnejo?
O Pocnejo faz parte do sertanejo, com todos os elementos sonoros. Mas as narrativas são outras, são outros tipos de pessoas cantando. Não é aquela coisa tradicional do homem hétero cantando. Surgiu recentemente e ganhou força. Apesar de eu ser o único no momento, quero muito não ser o único artista da comunidade LGBT no sertanejo.

E por que você escolheu o sertanejo?
Sempre cantei e gostei da música pop e sempre quis trabalhar com música. Durante muito tempo pensei em até cantar pop por ser um ambiente mais aberto. Pensei no sertanejo por causa do meu pai. Hoje tem muitos LGBTs na música além do pop, então, eu pensei ‘Há LGBTs em todos os ritmos, por que não tem no sertanejo?’. Me arrisquei nisso. Ouvi muito que sertanejo não é para gay, mas pensei, 'por que não?'.

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Qual artista você acompanha no sertanejo?
Obviamente eu acompanho Rionegro & Solimões, Milionário & José Rico, Tonico & Tinoco, Tião Carreiro, por influência do meu pai. Hoje do sertanejo gosto muito das mulheres, como Marília Mendonça, Maiara & Maraisa, Naiara Azevedo

Como foi a recepção do público ao Pocnejo?
Muito maior que imaginei! O pessoal abraçou demais minha música. Acredito que seja muito mais pelo discurso e identificação do que pelo estilo musical em si. A galera é muito aberta para escutar diferentes tipos de música, desde que aquilo converse com a realidade deles. Quero trazer um novo público pro sertanejo. Escrevi “Amor Rural” justamente para aquela galera que não escuta sertanejo por ser uma música de “hétero”. Obviamente teve muitos comentários negativos na internet, mas o importante é focar no positivo.

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O fato de você ser filho do Solimões ajudou para dar o pontapé inicial na carreira?
Com certeza! Quando lancei sempre era ‘Filho do Solimões lança sertanejo gay’, não era o Gabeu. Por um lado, eu entendo, é uma maneira das pessoas me conhecerem. Então me ajudou muito consegui acessar os lugares por conta do meu pai. Talvez isso me incomode a longo prazo. Em 10 anos não quero ser só filho do Solimões. 

E seu pai ajuda você na carreira?
Ele ajuda, mas não dá palpite na parte criativa. Chego com tudo pronto. Querendo ou não, somos pessoas muito diferentes. As idades não batem às vezes, mas ele apoia e diz: ‘Isso é diferente, pode dar certo!’, sempre me preparando para a parte negativa.

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Você pretende se manter no estilo de “Amor Rural?”
A ideia de “Amor Rural” foi minha desde o princípio. O estúdio e os bonequinhos foram propositais para ficar mais barato mesmo (risos). Deu super certo, mas meu novo clipe é totalmente diferente, claro, não deixando o sertanejo raiz. Ele tem muitas cores, muito rosa e azul e brilhos.

A nova música “Sugar Daddy” fala sobre o que?
Muita gente está pensando que eu vou falar sobre querer ter um Sugar Daddy, mas é justamente oposto. Já queria escrever uma música sobre dinheiro, então no vídeo traremos luxo e riqueza para condizer com a narrativa. A canção tem a pegada cômica, muito engraçada. 

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E qual sua opinião sobre os sugar daddy?
Acho muito problemático. Isso tende a se tornar uma relação abusiva, nada saudável. Ao se submeter em troca de dinheiro, a pessoa está pagando para ter relação. Uma hora, uma das pessoas se sentirá em situação de poder, ainda mais que normalmente é um cara mais velho que paga para ter uma mulher mais jovem ou até um menino gay. Na música, quero fazer as pessoas pensarem se elas realmente querem um Sugar Daddy. 

E o que você pensa sobre o Pink Money?
Realmente estamos em um momento onde as narrativas LGBTs estão em alta. Querem falar sobre isso, perceberam que tem público e dá dinheiro. E isso não está errado. Todo mundo quer dinheiro, o problema é atingir um público e não contribuir para a causa. Se é puramente por pink money… horrível! Tem muitos artistas que se aproveitam. Mas se você tem a consciência, se preocupa, não vejo problemas. Eu quero o pink money, todo artistas LGBT quer também. 

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Você ficou com medo de se lançar como artista em um período político conturbado, em que o presidente do país já fez comentários homofóbicos?
Fiquei com receio, as pessoas se sentiram mais fortes com Bolsonaro no poder. O sertanejo é muito tradicional, machista. Tive medo de me arriscar. Mas acho que vale a pena eu me manter nisso.

Qual sua crítica ao sertanejo?
Ao sertanejo raiz nenhuma, já que foi ele que pavimentou o caminho para os artistas universitários chegarem até aqui. Por mais que eu ache que existam narrativas que, para mim não servem, são machistas, homofóbicas, algumas racistas, o movimento do feminino chegou para mudar isso um pouco. Era muito pior, as mulheres estão com uma força imensa. 

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Quais os planos para o futuro?
Eu estou em estúdio no momento. Pretendo lançar um EP depois de "Sugar Daddy", mas quem sabe vire um álbum completo, as coisas podem mudar, talvez até tenha um novo single.

 

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