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'A necessidade de falar o que eu realmente penso já estava me sufocando': Bruno Caliman lança Alter & Eu, álbum em formato de filme [ENTREVISTA]

O compositor extraterrestre conversou com a Rolling Stone Country sobre ideias, inspirações e loucuras que o levaram até Califórnia para gravar um filme

Clara Guimarães | @claracastrog Publicado em 22/10/2020, às 09h00

Bruno Caliman
Bruno Caliman - Foto: Divulgação

Por uma chamada virtual, a Rolling Stone Country sentou com Bruno Caliman para conversar sobre a concepção do recente lançamento do primeiro álbum em formato de filme: Alter & Eu.

Como um dos maiores compositores brasileiro, Caliman, que já teve músicas gravadas por Bruno & Marrone, Luan Santana, Gusttavo Lima, Raça Negra, Lucas Lucco,Jorge & Mateus e muitos mais, colocou a cara - ou melhor, metade da cara, - pela primeira vez em um projeto audiovisual próprio.

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"Dividi meu rosto na foto do projeto, porque também estava morrendo de vergonha de colocar meu rosto inteiro de cara no primeiro trabalho, então já foi um desculpa para eu tampar", disse Caliman, revelando os bastidores da escolha da capa. 

Mas essa timidez acaba no momento em que o assunto é a música ou o cinema. Caliman precisou ser muito ousado para seguir com a decisão de gravar um DVD em um formato novo entre os cantores brasileiros. "Se eu tivesse calculado tudo antes, programado no papel, acho que eu não teria coragem de fazer", admite.

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O filme, que já foi lançado de forma exclusiva na Apple Music no dia 16 de outubro, chega para o público geral no dia 30 do mesmo mês, no canal de YouTube do artista. Alter & Eu é uma combinação de duas paixões de Caliman, feito por uma equipe pequena e movido pela paixão e pela necessidade de Caliman de ser conhecido por quem é, e não pelo que os outros escolhem dele, o projeto nasceu.

"A necessidade de gravar um disco e falar as coisas que eu realmente penso já estava me sufocando, porque todo mundo conhecia, até então, eu, com 40 anos de idade, pelo que as pessoas escolhiam o meu texto", desabafou Caliman em entrevista à Rolling Stone Country.

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O compositor extraterrestre conversou sobre ideias, inspirações e boas loucuras que o levaram até Califórnia para gravar um filme cheio de referências e de músicas. Confira a entrevista na íntegra:

Você pode contar um pouco desse projeto e como foi o processo de concepção do Alter & Eu?

O Alter & Eu combina duas paixões que eu tenho, que é o cinema, principalmente roteiro, com a música, que eu sou compositor e cantor. Eu sempre quis gravar um projeto musical, mas nunca me identificava com o formato convencional que eu via em DVDs padrões de show, onde o artista sobe ao palco e só canta. Então, eu escrevi um roteiro, que eu gravei na Califórnia, lá em Lake Tahoe, que é o set de filmagem do filme E.T., porque eu sou um louco afcicionado pelo filme do Spielberg, do E.T. , do dedinho, do Elliot, amo!

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Como você foi parar na Califórnia?

Acabei dando a sorte divina, porque tenho um amigo que mora lá perto, que é o produtor musical, Lucas Santos, e o Gui Dalzoto, que é o diretor de cinema estava lá período certo. Então, os planetas, as estrelas, os astros se alinharam perfeitamente para gravar esse filme em 10 dias.

Então a ideia inicial não era gravar na Califórnia?

Não, a ideia inicial era montar um quarto em São Paulo, um cenário para simular o ambiente onde eu componho, e aí eu cantaria músicas para alguns personagens, que iriam me visitar. Era uma coisa totalmente diferente. Eu tive que escrever o roteiro todo de novo durante o vôo de 12 horas. Infelizmente não deixei o rapaz do lado em paz, porque eu tive que ligar o laptop, na luz mais baixa possível, mas mesmo assim incomodou ele várias vezes. As aeromoças foram educadíssimas comigo, pediram várias vezes para fechar o notebook. E eu acabei fazendo a tenda com um cobertorzinho que eles fornecem no avião para conseguir escrever a tempo de chegar na Califórnia.

Que loucura! Mas como você estudou cinema, isso deve ter ajudado muito nesse processo de escrever o roteiro...

Ajudou muito, A coisa do ato, do roteiro, dos personagens, me ajudou bastante a elaborar o roteiro. E principalmente unir as músicas a esse roteiro. Mas o mais interessante talvez seja a ideia em si de juntar a essas duas coisas veio da observação do meu filho e os amigos jogando os novos games, que eles chamam de jogos 'modo história', 'modo campanha'.

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Como que funciona isso?

Nesses jogos, eles são o personagem e, além de jogar, esse personagem tem uma personalidade própria, tem um enredo muito atraente.  Então esses jogos novos dessa turna de 15, 18 anos, se você só assistir alguém jogar já é uma coisa muito legal, porque antigamente ou você jogava ou não jogava, não dá para você assistir aquele quadradinho do Atari andando para lá e para cá e sem personalidade alguma.

Sim, realmente não é nada interessante...

Exato. Aí eu falei: 'Poxa, se as pessoas do filme conseguirem se atrair a minha personalidade, ao meu jeito ou ao do personagem que eu estou interpretando e, além disso, relacionar isso com as músicas, vai ser ideal para mim. Então é um formato que eu acabei chamando, de um grosso modo, de DVD Modo História. Eu acho que a nomenclatura DVD não vai sumir do mapa assim tão rapidamente.

E em qual data que foi gravado o filme?

Foi gravado no final de setembro, há exatamente um  ano.

Interessante, porque, na verdade, eu assisti ao clipe de "Satélites" e achei muito condizente com o momento que estamos vivendo agora de isolamento. Mas você gravou antes....

Você viu? Essa música foi feita em janeiro de 2019. E de novo, os planetas, as estrelas, os astros se alinharam para dar certo e essa música ser tão significativa agora. 

Além do E.T e dos games, tiveram outras referências?

No filme, eu usei todas as referências de filmes sobre alienígenas que eu tinha: Guerra dos Mundos, O Dia Que a Terra Parou, Independece Day, dei uma pitadinha de tudo. Sempre vai dar essa lembrança visualmente, também no texto e na ideia em si, de ser um compositor em busca de sinais, em busca de alguma resposta fora do nosso universo.

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Então você as vezes se enxerga como um alienígena mesmo?

Total! Você acredita que já há alguns anos, por causa dos textos e das músicas meio diferentonas,alguns amigos me chamam de ET. Eles brincam, falam: 'Esse cara não é daqui não'. E acabou pegando. Então eu pensei: 'Cara, vou acabar juntando isso também'.

E você até se transformou em um alienígena para a capa.

Ficou legal, dividi meu rosto, porque também estava morrendo de vergonha de colocar meu rosto inteiro de cara no primeiro trabalho, então já foi um desculpa para eu tampar. Minha franja de um lado todo rosto, quer dizer, as coisas se juntaram bem nesse trabalho.

Como aparece esse cenário da Califórnia no filme?

Então, como a verba era curtíssima, o que que eu fiz: eu aluguei uma casa no Airbnb, onde todo mundo da produção se hospedou, cinco pessoas, e a própria casa serviu de set de filmagem de algumas cenas. Mas o filme todo tem muitas imagens externas, é bem diversificado, mas a casa é do Airbnb.

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Nossa, deve ter sido um desafio gravar um projeto desse com só cinco pessoas.

Pois é, cinco pessoas, o meu projeto inicial tinha 33. Eu não levei maquiador, não tem cabeleireiro, não tem figurinista, eu fui tirando tudo, porque como era nos Estados Unidos, eu não tinha dinheiro. Então acabou sobrando para um ator. De nove atores, eu reduzi só para um ator, meu grande amigo Enzo Romani, que arrebentou. Então, lá no aviãozinho dentro do cobertor, eu escrevi um roteiro praticamente para nós dois. A história tem um arco muito legal, mas só estamos nós lá na floresta de Lake Tahoe.

E você já tinha atuado antes?

Não, você acredita? Também foi outro desafio. Para falar verdade, se eu tivesse calculado tudo antes, programado no papel, acho que eu não teria coragem de fazer. Eu fiz porque eu fui meio que sem responsabilidade alguma de produzidir isso. Fui na confiança de cinco amigos malucos dentro de uma casa que acordavam fazendo um filme e tinham que terminar tudo em 10 dias. Trabalhamos de madrugada, eu quebrei a mão no segundo dia, então tive que passar o filme inteiro simulando que eu estou tocando violão. Foi o caos! Mas foi muito bom.  O fotógrafo do filme era o cozinheiro, era o cara que ajeitava meu cabelo, então cada um teve umas cinco funções.

E  eu achei a promoção do filme muito interessante também, dos vídeos que você lançou dos artistas falando como estivessem sendo interrogados sobre você. Como foi essa ideia e como foi explicar para esses artistas que eles precisavam falar que você é um alienígena?

Sabe o que eu fiz? Eu pensei em pedir um depoimento por vídeo, só que eu fiquei com vergonha. Então eu escrevi um texto para cada um e mandei por WhatsApp. Falei: 'Cara, você pode gravar isso do seu WhatsApp mesmo?'. Todo mundo deu risada: 'Que isso, eu estou te chamando de ET!?". 'Pode falar que é por minha conta, só leia o texto e interprete no gravador do celular mesmo e me manda', eu pedi. Todos me mandaram rindo e achando engraçado. Aí eu peguei o formato tipo do documento do FBI, aquela coisinha, aquele gravador girando, como se fosse alguém pressionando os artistas para falar: 'O cara é um ET, é um ET mesmo'. Foi outra sacada que eu tive para campanha.

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E existe uma diferença entre compor para esses artistas e compor para si mesmo?

Na verdade, eu sempre fiz músicas para mim mesmo. Assim, imagina que eu sou um pintor e que tem um ateliê no fundo de casa e eu começo a pintar do jeito que eu penso. E, de vez em quando, o artista entra e fala: 'esse quadro eu quero', 'esse eu não quero', 'esse eu vou levar porque combina com minha sala, com meu disco'. Na verdade, eu recebo muito mais "nãos" do que "sim". Sempre recebei mais "não", muito mais. Eu já estou muito acostumado. E a necessidade de gravar um disco e falar as coisas que eu realmente penso já estava me sufocando, porque todo mundo conhecia, até então, eu, com 40 anos de idade, pelo que as pessoas escolhiam o meu texto.

E você se sentia frustrado.

Estava me aflingindo profundamente, eu já estava ficando velho, meus cabelos brancos, meu corpo mudando, eu ficando mais chato, mais ranzinza, minha pele perdendo elasticidade, meus filhos ficando maiores que eu -  eu tenho uma de 22  e um de 18 - , então, eu falei: 'gente, eu não posso dar essa desculpa, não posso morrer sem tentar fazer isso, sem arriscar dinheiro, arriscar sozinho e ir para bronca com amigos'. E eu fui. Não vou me arrepender disso, pode não dar certo, mas não vou me arrepender.

E o que é isso que você quis tanto dizer, falar e mostrar de si mesmo para as pessoas com esse DVD? 

Eu quero que essas pessoas vejam que um cara corajoso e todo corajoso é um pouco de louco. Eu falo que Deus escuta todo mundo, mas para os sonhadores, ele oferece café. Eu brinco com isso, né. E eu já provei esse café de Deus tanto. Eu visualizei isso tantas vezes e não tive condições, sempre estava a serviço único e exclusivamente de filhos, de esposa, de lar, de outros cantores, então eu fui abdicando um pouco da minha vida. Claro que eu sou um cara muito feliz, mas tinha uma parte de mim  que estava incompleto ainda.

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Você precisava colocar isso para fora....

Eu preciso fazer essas coisas, porque a vida é um piscar de olhos e daqui a pouco eu acordo olhando para um lustre no teto de um hospital e pensando: 'Por que diabos foi que eu não fiz aquilo que eu estou pensando até hoje?'. E o que me mataria se eu estivesse olhando para esse lustre no teto de um hospital, lúcido, muito lúcido, a ponto de pensar assim:  'Que idiota você foi, que imbecil você foi que você não fez as coisas que você sonhou fazer, do jeito que você sempre sonhou fazer?'. Porque as coisas que você faz durante o dia, as coisas que você faz do jeito que os outros querem, você faz todo dia. Agora, e os dias que você faz tudo do jeito que você quer? Esses dias que valem a pena para mim e eu não podia esquecer desses dias. 

Acho que muita gente percebeu isso, olhando os comentários no clipe de "Satélites" tinham vário falando sobre como a qualidade vai ser ótima, mesmo que talvez não seja tão popular por não seguir o padrão ou uma 'modinha'.

O resultado não tenho como calcular. Eu não espero muito resultado quantitativo, eu espero que eu tenha feito quem gosta de mim, do meu trabalho, orgulhoso, e eu me sentir orgulhoso. Não envaidecido, mas orgulhoso. Eu vejo bilhões de erros em tudo, eu olhando me culpo muito. Mas realmente estou feliz por isso.

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