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Gali Galó lança "Caminhoneira", canção que subverte esteriótipos de gênero: 'Ser queer me torna uma pessoa disposta a mudar o mundo' [EXCLUSIVO]

Gali contou sobre a trajetória dentro da música e o processo de reencontro com as raízes caipiras

Seham Furlan Publicado em 30/06/2020, às 16h09

Gali Galó
Gali Galó - Divulgação/ Maria Moreira

Gali Galó lançou nesta terça, 30, a música "Caminhoneira", disponível nas plataformas digitais, que integra o próximo álbum.

A música subverte os estereótipos de gênero impostos socialmente, falando de orgulho LGBTQIA+ e liberdade. O hit é parte de um projeto audiovisual a ser lançado -- um RodieMovie --, ou filme de estrada em 10 capítulos, uma jornada do herói em busca de algo, no caso de Gali, em busca da identidade de gênero.

Capa do single "Caminhoneira", de Gali Galó
Capa de "Caminhoneira", de Gali Galó. Foto: Maria Moreira

 

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Gali Galó andou muito chão até entender-se como parte da cultura sertaneja. Fugiu do interior em busca de maior representatividade. Cantou rock, ainda enquanto Camila Garófalo, mas viu-se performando a figura da 'diva roqueira', algo que não era a sua verdade.

Um estalo ressoou a partir do surgimento e sucesso do feminejo, principalmente com Marília Mendonça, mas ainda não era isso. Era algo diferente: "Uma caixa democrática", como descreveu Gali.

Foi quando ouviu Gabeu, também voz do queernejo, que percebeu as possibilidades a serem exploradas no gênero musical que a acompanhou durante a infância em rodas de moda de viola perto da fogueira.

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Em entrevista à Rolling Stone Country Brasil, Gali Galó contou sobre o que busca com o novo trabalho, a história e recepção dentro do queernejo, dentre outros assuntos. Confira:

 

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RS Country: Estamos no mês do orgulho LGBTQ+. O que podemos comemorar?

Gali Galó: Podemos comemorar o fato de que estamos muito seguros do que somos hoje e continuar comemorando depois que este mês acabar. Prova disso é que nossas siglas aumentaram, nossa comunidade está muito mais complexa, consciente. Nossa luta vem sendo cada vez mais política, profunda e urgente. Parece um pouco romantizar isto de 'ser LGBT', porque muitas coisas ruins e pessoas menos privilegiadas sofrem agressões. É tudo muito complexo, todas as intersecções dentro da sigla, há a intersecção de raça, há pessoas que são menos privilegiadas e tiveram ainda mais problemas.

O que temos em comum é isto: sabemos que nossa sigla pode continuar aumentando. Temos a incrível missão de espalhar a ideia de diversidade como sinônimo de riqueza espiritual. Graças ao fato de eu ser queer, sou uma pessoa mais pensante. Penso mais o gênero, as relações com as pessoas. Tenho muitos traumas pelo que a sociedade me fez passar. Mas a herança de ser queer me torna uma pessoa mais inteligente, aberta e disposta a mudar o mundo.

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RS Country: Qual a sua história com a música sertaneja?

Gali Galó: Quando eu era criança, ouvia música sertaneja e música de raiz na casa das minhas avós, ou quando eu ia para a fazendo com meus primos. Sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo. Rolava muita moda de viola em volta da fogueira. Na adolescência, falo que eu e o sertanejo fomos afastados. Foi quando os discursos começaram a não bater. Eu não me identificava. Quando comecei a interpretar as letras, vi que não tinha muito a ver comigo.

Eu não podia ir ouvir sertanejo em um boteco em Ribeirão Preto, porque eu era uma mulher lésbica e eu queria estar em um lugar perto de pessoas LGBTs também. Eu meio que fui expulsa. Comecei a ir nas baladas GLS -- na época, nossa sigla só tinha 3 letras. Não gostava muito de música pop, mas foi o universo que me abraçou. Estava ali com meus amigos.

Fui me reencontrar com o sertanejo, mais precisamente, com o feminejo, muito tempo depois, quando fui para São Paulo, aos dezessete anos. Foi quando começou a surgir esta narrativa do feminejo com a Marília Mendonça, Simone & Simaria, Maiara & Maraisa. Principalmente a Marília, acho ela uma compositora fora do normal. Na época, vi algumas músicas feministas. Foi aonde me reencontrei: 'Se existe feminejo, eu também posso cantar'.

Antes eu cantava rock. Eu já estava desconstruindo e querendo mudar tudo. Caí neste lugar da 'diva do rock', até que vi que não era bem ali que queria estar. Depois, regressei às minhas raízes. 'De que maneiras poderia cantar sertanejo sendo fiel a mim?' Na época, surgiu Gabeu. Daí entrei em contato com ele, a gente se conheceu em São Paulo. Ele me apresentou Alice Marcone. Não era feminejo também. As pessoas questionam: 'Por que falar queernejo? Fala sertanejo, é tudo a mesma coisa!'. Não, não é! Não tem como ser, porque este buraco que ficou na minha vida foi preenchido de outras formas. Conheci a música indie, o cenário independente que me abraçou. Sendo queer e querendo levar a bandeira adiante, sertanejo não faria sentido. 

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RS Country: O queernejo vem mais consciente politicamente?

Gali Galó: Exato. É o papo que queremos dar, quero resgatar meus amigos do interior também. Eu não saí de Ribeirão por querer. Eu fugi: 'Não dá para ficar aqui, preciso da minha liberdade'. Pensei que em São Paulo teria mais representatividade. Fui tentando achar minhas intersecções. Fiquei treze anos em São Paulo, aprendi e trabalhei. Hoje estou morando em outro lugar, com outra cabeça, acessando outros públicos e bem posicionada mesmo.

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RS Country: Quais foram as reações ao seu trabalho no queernejo?

Gali Galó: Foram muito positivas! Antes, as pessoas me conheciam como Camila Garófalo. Eu tinha um público majoritariamente masculino. Foi ali que entendi a figura de 'diva do rock'... Usava roupas justas. Tanto que quis mudar de nome por isto também. Quero ser livre para criar outra coisa que tenha mais a minha cara.

Hoje, prefiro que as pessoas me chamem de Gali do que de Camila. Acabou virando meu nome social também, um nome não-binário. A comunidade queer me recebeu muito bem. Isto me deixou muito feliz, desde "Fluxo". A comunidade me abraçou, ou eu estava também mais aberta. Meu trabalho passou a ter mais verdade. O queernejo vem com consciência.

RS Country: Qual seu processo para compor? 

Gali Galó: Costumava falar que só compunha quando eu estava muito triste. Estou começado a exercitar isto em mim. Tanto que meu primeiro disco como Camila Garófalo, antes, se chama Sombras e Sobras. Hoje, estou começando a compor no Sol, quando me sinto bem. "Caminhoneira" é um resultado disso. Um momento no qual eu estava me sentindo bem, solar. Tenho me inspirado muito na natureza. 

RS Country: Onde busca as inspirações musicais e quais as principais diferenças diante do mercado musical?

Gali Galó: [O mercado] É uma receita de bolo. No meu caso, me apoiei muito no indie. Comecei a fazer parte da cena alternativa da cena independente. As músicas que mais escuto é a Nova MPB, escuto muito Céu, Aíla, Bia Ferreira. Gente nova, que está fazendo coisa nova. Quando fui fazer este trabalho de reencontro com minhas raízes, busquei referência no feminejo, mas praticamente música brasileira. Gosto muito de Johnny Cash, country. Sertanejo nacional é feminejo, ou, antes de eu ter consciência, além das músicas mais tradicionais. Atualmente, mais a Nova MPB, que trouxe o brega, os beats. "Caminhoneira" tem a viola caipira, mas tem também o beat eletrônico.

 

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RS Country: Você pode contar a narrativa da música 'Caminhoneira'?

Gali Galó: Este termo "Caminhoneira", vejo mais como um esteriótipo de gênero criado pela sociedade para representar mulheres masculinizadas. As mulheres ditas masculinas. A música exalta um orgulho em ser definida como caminhoneira, já que as mulheres que dirigem caminhões são personagens de muita história e que também merecem respeito.

Hoje, eu não me considero mais assim, me coloco enquanto uma pessoa não-binária, mas "Caminhoneira" não deixa de ser, para mim, um momento da minha história.

É um grande momento da minha história antes de eu me entender enquanto pessoa não-binária, e por eu me entender no gênero fluido -- porque dentro da categoria não-binária, há vários gêneros --, é um gênero que passeia por diversos pontos. Você pode ser mulher, pode ser homem. Quando me entendo como mulher, sou caminhoneira.

Na palavra caminhoneira há também a palavra caminho. Uma passagem. Me sinto esta pessoa que andou muito chão dentro da pesquisa de identidade de gênero, de ser uma pessoa LGBTQIA+. Quis trazer este tema como algo para se orgulhar. Também como uma crítica aos esteriótipos de gênero.

Antigamente, se me chamassem de sapatão na escola, eu chorava. Hoje, sou sapatão com orgulho. É uma inversão de papel. Na música falo 'Uns me chamam de caminhoneira/ Outros me chamam de caubói viado/ Mas no fundo eu sou livre'.

Eu sou uma pessoa queer. Se as pessoas me enxergarem enquanto mulher, elas veem uma caminhoneira, se elas me enxergarem como homem, vão ver no máximo um caubói viado. As pessoas precisam desta divisão. No fundo, eu sou livre. Qualquer lugar que eu for, eu vou ser quem eu sou.

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RS Country: Quais artistas precisamos conhecer?

Gali Galó: Gabeu, Alice Marcone, Reddy Allor, primeira drag queen a cantar sertanejo, Bemti também, que mistura música indie com viola caipira, Aíla, Luisa & Os Alquimistas, Luiza Lian, Doralyce, Bia Ferreira, Josyara, Letrux.

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Ficha Técnica:

Letra e Música: Gali Galó e Theo Charbel;

Produção Musical: Mônica AgenaArranjos: Gali (Viola e voz), Theo Charbel (Viola e voz), 

Beats e Baixo: Érica Silva;

Beats: Gianlucca Azevedo;

Violino: Carla Zago;

Mixagem e Masterização: Pedro Serapicos.

 

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